8 de ago. de 2009

Tikun em Câncer

Para Ana Coll
...às vezes eu deixei
Você me ver chorar sorrindo.
Sei tudo que o amor
É capaz de lhe dar
Eu sei já sofri
Mas não deixo de amar...

Por ser Touro, ele é muito teimoso e gosta do conforto ligado aos cinco sentidos (comer bem, coisas que cheiram bem, ouvir boa música etc.). Por ter o ascendente em câncer, demonstra sempre uma suavidade, um lado mais emotivo, mais doce, mais carinhoso. Mas, a sua lua (que é o regente de câncer) é em libra e tem conjunção com saturno, ou seja, ele teve um certo distanciamento ou uma certa frieza na relação com a mãe, o que o faz não demonstrar as suas emoções quanto mais afetado por elas.
Como marte está em oposição a Vênus, o princípio masculino/feminino cai no conflito. Ele se sente atraído por um tipo de mulher, porém só se apaixona por outros tipos e os momentos de desejo e amor quase nunca se encaixam com os da outra pessoa.
Ele se cobra muita perfeição, quer sempre uma emoção “arrumada”.
O Tikun dele é justamente trabalhar as "emoções". Tentar ser um pouco mãe, mesmo sendo homem. Olhar bem para aquela relação distanciada com a mãe, para obter o melhor do seu Tikun, que é poder ser essa pessoa acolhedora, emocional, que sabe se doar, mas que sabe dizer não, quando se precisa colocar um não.
Era um sábado de sol. Ele de saco cheio saiu de casa sem prestar atenção na roupa meio velha que vestia, no cabelo meio desgrenhado, no mau cheiro de quem não tomava banho a dois dias, sem prestar atenção em si, afinal. Tinha vontade de fumar, mas lembrou que não fumava; tinha fome, mas também tinha os bolsos vazios; tinha convites, propostas, pedidos, carência, saudade, amor e raiva. Pela primeira vez, sentira raiva. Raiva de ter engolido todos aqueles nós, raiva de ter ficado com os mesmos nós por muito e muito tempo, raiva de nunca ter conseguido vomitar os verbos corretos para as pessoas erradas. Raiva.
Saliva escorria no canto da boca, enquanto no canto do beco se escorava e vomitava o que não era verbo, o que não era vida, o que não era nada.
Tentou levantar, mas só conseguiu um banho de lama que fora atirado por um Peugeot preto com um som muito alto. Demorou para se recuperar das tonturas que sentia e conseguir seguir.
Mas não tinha rota, não tinha rumo. Parou. As tonturas voltaram. O choro voltou. Uma cegueira se apoderou dos seus olhos. Suas pernas tremeram. Suas mãos adormeceram. Seu corpo quis cair, mas fora acolhido por alguém que não suportava o seu peso. Breu.

Acorda. Uma pequena sala. Um pequeno apartamento. Uma pequena mulher. _Você está bem?
Não respondeu, por não saber o que dizer. Apenas encolheu o corpo, fechou novamente os olhos e abriu a boca num grito mudo que a assustou mais que uma fera selvagem.
_Fala comigo. Eu quero te ajudar. Eu to aqui.
Ele, depois de um tempo, levantou a cabeça, olhou-a fixamente nos olhos e disse:
_Ana...
Choraram.

_Volta aqui... volta aqui... volta aqui... ei...
Não deu tempo.

Correu até a sua casa, arrancou a roupa, entrou debaixo do chuveiro, arrancou a cortina do Box, olhou para o espelho e vomitou:
_você é um embrólio sentimental; e você é um estúpido; porra; e você é um covarde filho da puta; e você é uma medrosa; e você está envelhecendo; você aí tem muita dificuldade de dizer não vou, mas tem muita facilidade de não ir; eu não te conheço; eu não quero transar com você; foda-se você aí; eu não preciso de você; eu quero que você morra; caralho; a humanidade é muito burra, não sabe ser feliz...
Parou.
Se deu conta que a humanidade não são os outros.
Enxugou-se, foi pra cama e pensou: “eu não consegui”.
Tocava “emoções” quando ele desligou o rádio pra ir dormir dizendo: “desculpa Roberto, se chorei ou se sorri o importante NÃO É que emoções eu vivi, o importante é que eu chorei ou sorri.”

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